Entrevista

05 agosto 2023, 15h53

Entrevista Diogo Ribeiro

Diogo Ribeiro ergue a medalha de prata conquistada no Mundial

Menino-prodígio da natação nacional, Diogo Ribeiro representa o Benfica com orgulho. Tem apenas 18 anos e, na estreia como sénior num Campeonato do Mundo, conquistou a medalha de prata nos 50 metros mariposa (22,80 segundos), no dia 24 de julho. Fukuoka (Japão) foi o palco de mais um momento glorioso na carreira do nadador, autor do melhor resultado de sempre de Portugal nos Mundiais absolutos. Mesmo com cerca de 20 horas de voo e duas escalas no regresso a Lisboa, não deu notas de cansaço durante a entrevista ao jornal O Benfica publicada na edição de 4 de agosto.

Grato ao Clube, o nadador campeão mundial júnior em 50 e 100 metros mariposa e 50 metros livres e que, antes deste Mundial, já tinha assegurado mínimos olímpicos para Paris 2024, em três provas distintas, abordou o momento atual e projetou um futuro já direcionado para os Jogos Olímpicos.

Entrevista Diogo Ribeiro

Qual a sensação de voltar a casa com uma medalha?

É muito bom! Não estou habituado a tantas câmaras à chegada [a Lisboa], mas espero que aconteça cada vez mais, será bom sinal. Sinto-me bastante bem, estou feliz. Esta época tem corrido bem, bem como a anterior. No Benfica, comecei a dar o salto que necessitava de dar. Tenho a agradecer bastante ao Benfica, ao COP e à Federação Portuguesa de Natação, entidades que me ajudaram bastante a estar onde estou. Não seria possível, se calhar, conseguir metade sem a ajuda, especialmente do Benfica. Quero agradecer ao Presidente Rui Costa pela mensagem de carinho. É sempre bom saber que posso contar com ele. Tenho 18 anos, e, no meu 1.º ano de sénior, conquistar a medalha de prata num Campeonato do Mundo sénior deixa-me sem palavras.

Falou no Presidente. Que importância atribui à mensagem que lhe dirigiu?

É uma honra para mim receber mensagens do Presidente. O que vivo neste momento, espero que sirva de exemplo para gerações mais novas, que estejam a ver o que estou a fazer na natação. Que cada vez mais possamos ter atletas em Portugal a atingirem sonhos como o meu: serem atletas internacionalmente medalhados.

Entrevista Diogo Ribeiro

"Quero agradecer ao Presidente Rui Costa pela mensagem de carinho. É sempre bom saber que posso contar com o Presidente"

Diogo Ribeiro

Esta medalha de prata superou as suas expectativas?

Já tinha em mente a possibilidade de obter uma medalha, mas não estava à espera de que fosse de prata. Como no Europeu já tinha sido bronze, sonhava ser bronze outra vez. Foi melhor ainda. Não sei se isso quer dizer algo... Bronze no Europeu, prata no Mundial, depois virão os Jogos Olímpicos... Veremos. Vou trabalhar no máximo e espero continuar a melhorar os meus tempos, como tenho vindo a melhorar, porque seria incrível.

Na final, nadou na pista 1. Que dificuldades isso lhe trouxe?

Um treinador bastante conhecido na natação, James Gibson, disse-me o seguinte quando me viu passar à final na pista 1: 'Amigo, na pista 1, da ponta, tudo pode acontecer.' Percebi que era a dica para atingir uma medalha. Comecei a pensar que não teria as ondas do lado esquerdo, ou seja, iria conseguir nadar sem ondas a puxar para trás e com uma onda a conseguir puxar para a frente. Isso também tem que ver como nos posicionamos na pista durante a prova. Na partida, fiz um bom salto, e uma boa chegada, que não tinha conseguido na eliminatória. Pesando tudo, foi uma prova perfeita. Fiz 22,80s, melhorei 16 centésimos numa prova de 50 m. É ótimo.

Aos meios do Clube, tinha referido que o Mundial seria um teste aos seus limites. Que balanço faz a esse nível agora?

Posso dizer que estava rápido nesta competição, mas não senti que estivesse assim tão bem para os 100 metros, que serão as provas principais nos Jogos Olímpicos. Conseguir uma medalha foi bastante bom, mas as provas que gostaria que tivessem sido melhores não foram assim tão boas. Por exemplo, gostaria de ter feito 50 segundos nos 100 metros mariposa. Fiz 51,54s. Nos 100 metros livres tinha 47,98s e também poderia ter baixado esse tempo. Tendo em conta que estive parado uma semana há um mês, estes resultados são bons indicadores, até foram resultados bastante bons. Nem quero pensar no que teria feito se não tivesse parado, mas a vida é assim. Tive a infelicidade de contrair a covid-19 nessa semana, mas depois ultrapassámos isso.

Entrevista Diogo Ribeiro

Tendo já os mínimos olímpicos, sente maior segurança para o futuro?

Sim, porque posso, por exemplo, ir ao Nacional, realizar um 'treino', por assim dizer. Não estando na minha melhor forma, se conseguir fazer bons tempos com carga de treino, será superbom, pois significará que, nos Jogos, estarei bem.

Focando-nos então nos Jogos Olímpicos do próximo ano, vai querer subir de patamar?

Quem me conhece sabe que não desisto facilmente. Quando meto uma coisa na cabeça, enquanto não a cumprir, não descanso. O que tenho na cabeça é estar nas finais. É o principal objetivo. Depois, o sonho é a medalha. Vou lutar por isso. Ao estar na final, tudo pode acontecer.

Sendo um jovem, que impacto tem sentido na sua vida com estes resultados? É abordado na rua?

Já sou mais do que queria. Não lido muito bem com entrevistas. Basicamente, é tentar treinar também para isso. Os Jogos são a meta, e agora é chegar lá e dar o máximo, fazer o meu melhor.

De que forma já olham para si os principais adversários?

Na natação há algo bastante interessante. Se não tens medalhas em Mundiais, olham para ti a rir-se. Não olham para ti com respeito. Tudo muda a partir do momento em que ganhas uma medalha. Já não és tu que os vais cumprimentar, são eles que vêm cumprimentar e querem falar-te. Falo também do [León] Marchand, que bateu agora o recorde do Phelps que faltava. Ganha-se respeito por ter uma medalha.

Entrevista Diogo Ribeiro

"Se não tens medalhas em Mundiais, [os adversários] olham para ti a rir-se. Não olham para ti com respeito. Tudo muda a partir do momento em que ganhas uma medalha"

Isso pressiona-o?

Não, deixa-me mais feliz e com mais confiança em mim mesmo. Agora, sim, sei que eles também têm medo de mim. Não sou só eu a olhar para eles de forma diferente.

Que aspetos considera que ainda pode melhorar?

Sem dúvida, os detalhes. Sou o segundo melhor do mundo... mas sinto que sou o melhor do mundo a nadar, sou o mais rápido. Falta-me os subaquáticos, debaixo de água, meter logo a pernada forte depois do salto que os outros têm. Treinar as viragens, as chegadas que falhei logo na eliminatória. Tudo junto, ainda pode dar-me bastante margem para, quem sabe?, um dia, bater um recorde mundial absoluto. São essas pequenas décimas que fazem a diferença.

Já falou da mensagem do Presidente. Que outras mensagens o marcaram mais?

A mais especial foi a do Presidente. Depois, a minha família, amigos e pessoas mais próximas.

O que lhe acrescentou a mudança para o Benfica? De que forma contribuiu para a sua evolução?

Contribuiu bastante! Por exemplo, antes de representar o Benfica não fazia ginásio. Há também o apoio financeiro, em estágios e em material. No Benfica, deixei de me preocupar com esses problemas, com os quais me deparava. O meu pai faleceu, e só tinha a minha mãe a ajudar-me com as despesas. No fundo, o Benfica mudou a minha vida como atleta e como pessoa. Tornou-me uma pessoa melhor, incutiu-me ainda mais valores. Agora, é continuar a melhorar e a treinar para dar mais resultados ao Clube.

Entrevista Diogo Ribeiro

Hoje, sente-se mais completo como atleta e cidadão?

Exato. Não sou só um bom nadador, mas um melhor atleta. Para mim, um atleta tem de ser bom na escola/universidade e pelo que faz no desporto. E, ainda, transmitir e ter valores. Foquei-me em ser uma boa pessoa, sendo um bom nadador, além da vertente escolar. Saber que estou a fazer isto tudo bem ainda me deixa mais contente do que se apenas tivesse resultados na natação.

Terá agora um período de férias. Que provas terá, depois, de maior importância?

Uma prova importante será o Mundial, em fevereiro. Antes disso, teremos os campeonatos nacionais individuais e de clubes. Fomos campeões de clubes neste ano [após interregno de 29 anos]. Ambas são provas bastante competitivas e importantes. Uma é para honrar o nome do Clube, enquanto a outra é para nos honrarmos individualmente com o nome do Clube. Queremos fazer história mais uma vez.

O que significa o Benfica para si?

Quando vim para o Benfica, acompanhava mais o futebol, o basquetebol e via os resultados da natação, naturalmente, das minhas referências, como a Diana [Durães]. Neste momento, vou conhecendo cada vez mais o Benfica e estou cada vez mais apaixonado pelo Clube. Ganhamos em todas as modalidades, já fui ver futsal, basquetebol, hóquei… e estamos sempre a ganhar. É o melhor clube do mundo.

Já tem noção de que entrou para a história não só do Clube como da natação nacional?

Sim, sem dúvida. Um dia até espero conseguir ter a minha imagem no exterior dos pavilhões, como Alexandre Yokochi.

Artigo publicado na edição de 4 de agosto do jornal O Benfica

Texto: Paulo Nunes Teixeira
Fotos: João Paulo Trindade / SL Benfica
Última atualização: 21 de março de 2024

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